sexta-feira, 25 de dezembro de 2009

Carne da minha carne sangue do meu sangue

186 - Carne da minha carne sangue do meu sangue

A canadiana que a avó lhe deu. Era essa a desculpa. Não fosse essa seria outra qualquer. Desde que comecei o Alfaiate que andava com ganas de a fotografar. Mas como o entusiasmo parecia estar todo do meu lado não insisti muito. Chamei-a de longe. Ela olhou e eu disparei. Acho que não gostou muito de se ver. Azar, essa preocupação tenho-a com os outros. A ela compenso-a doutra forma. A fotografia vinca-lhe o ar de miúda, exibe-a precisamente da forma que a vejo e, como é tradição nestas coisas, da forma como provavelmente a vou ver sempre. A diferença de idades foi suficiente para que, muito naturalmente, o sentimento fraterno tenha dado lugar a um paternalismo morno que se foi contorcendo sempre para se exprimir de forma saudável e civilizada. Acho que não me saí mal até agora, brindei sempre com sorrisos afáveis os seus amigos rapazes.

Acho que começou tudo com as fraldas. Tinha oito anos quando lhas mudei pela primeira vez. Foi assim que encarei uma dura realidade que não queria reconhecer – as mulheres também cagam e as mais bonitas não são excepção. Alguma coisa haveriam elas de ir fazer à casa de banho mas no que a isso diz respeito, sempre achei que a aplicabilidade da dúvida metódica do Descartes era de todo conveniente. Não vejo nem cheiro, porque raio hei-de ter de acreditar? (não caralho, não vos estou a tentar convencer de que lia Descartes com oito anos, estava apenas a tentar ser engraçado)

Tenho um lado da família mais unido, outro menos. Há familiares dos quais gosto mais, outros com quem nem sequer simpatizo. Nunca dei grande importância aos laços de sangue, não os escolhi e nem sempre me esforço por gramá-los. Com ela é diferente. Enfim…suponho que com ela seja tudo diferente. Nunca fui pai e não me parece que esse dia esteja para perto mas desde que ela nasceu que lhe sinto o cheiro. É carne da minha carne e sangue do meu sangue. E quando recorro àquele exercício infantil de tentar perceber o quanto se gosta do que quer que seja através daquilo que se está disposto a fazer por o que quer que fosse, dou por mim a pensar no motivo pelo qual seria capaz de matar e, ocorre-me um de imediato - ela.

Às vezes vivemos com as pessoas mas não as conhecemos a fundo. Aposto que metade dos nossos problemas relacionais vêm daí. É a atenção. (e o toque, não sentem falta do toque? foda-se, não menosprezem nunca a importância do toque) A atenção que damos aos outros. Ou a falta dela. E eu, mesmo amando-a da forma que amo, devo ter-lhe perdido algures o rasto da atenção (o toque nunca, afagá-la foi sempre o meu desporto favorito). Só o posso ter perdido porque houve um dia que uma circunstância inusitada nos deixou sós num final de tarde de praia. (podemos até lá passar o dia inteiro mas os melhores momentos hão-de suceder-se sempre ao final do dia, não é?) E falámos. Sobre o amor, a vida, os sentimentos, os pais, tragédias familiares e outras coisas mais. E nesse dia juro-vos, senti uma coisa no peito. Não é nenhum daqueles recursos estilísticos apaneleirados. Senti mesmo. A minha irmã, com quem partilhei o beliche onde ainda durmo; a minha irmã, que se mudou para um quarto onde nunca entrei sem bater; a minha irmã, que me deixou com náuseas quando me comunicaram a sua primeira menstruação; a minha irmã tinha-se tornado numa mulher deliciosa. Ouvia-a falar do pai, da mãe, do pai com a mãe, da mãe com o pai, da avó, da filha que não fala à avó, do avô que nunca conhecemos, do acidente, das tias, da morte das tias, de amor, de pequenas sensibilidades e de todas essas merdas que nos causam apertos no peito. Ouvi e emocionei-me. É verdade, sou um bocado maricóide nestas merdas mas não tenho por hábito andar por aí a choramingar. Mas naquele dia não aguentei. Não dava para aguentar. Ela viu as lágrimas e passou-me a mão - a palma, não as costas - pela cara, cerrando-me os olhos com a ponta dos dedos como se, naquele momento, fosse ela quem protegesse e tomasse conta do seu irmão vulnerável, oito anos mais velho.

A canadiana que a avó lhe deu. Era essa a desculpa. Não fosse essa seria outra qualquer. Porque eu não preciso de desculpas para falar da minha irmã. Por algum motivo é a primeira vez que me emociono a escrever um post. Por algum motivo, antes mesmo de me sentar aqui, já sabia que isto ia acabar assim. Esta merda não se explica. Nem tem que se explicar. É mesmo assim. E juro-vos, eu já sabia. Já sabia que ia acabar assim

sexta-feira, 18 de dezembro de 2009

quarta-feira, 16 de dezembro de 2009

domingo, 13 de dezembro de 2009

His name is Boateng. Nana Boateng

Nana Boateng (1)
Nana Boateng (2)

Só percebi o nome quando mo escreveu num papel. Isso e o link para o seu trabalho. O mesmo que, segundo se apressou a contar-me, o levou a ser fotografado pelo Scott Schuman. Não lhe censuro o orgulho.

Vim a Londres ter com um amigo. As fotografias, ou melhor, aqueles que fotografo, vão aparecendo naturalmente. Mas o Nana Boateng não é alguém que simplesmente nos apareça à frente. O Nana Boateng é um tipo que, depois de o fotografarmos, nos deixa na necessidade de contar a cada amigo que encontramos "não estás bem a ver o gajo que fotografei hoje". Eu sei que nem sequer vos conheço mas acreditem, mal podia esperar por chegar aqui e contar-vos:
- Vejam lá o gajo que fotografei hoje

sexta-feira, 11 de dezembro de 2009

Soho - Timothy and his bag

Soho - Timothy and his bag

A primeira coisa que nos ocorre numa fotografia de alguém que traz consigo um saco é usá-lo a tira-colo. A ideia de o pousar à sua frente foi do Tim. E ainda bem que foi o Tim a decidir porque eu não o teria feito melhor. Mas o bom desta foto não é o saco, o casaco a fazer lembrar aquelas camisolas dos pescadores da Ericeira e da Nazaré ou o trench coat que até parecia mal não ter fotografado em Londres. Esta fotografia é toda ela Tim. Por isso é que é boa. Vou regressar a Londres em finais de Janeiro. Se depender de mim, vai haver mais

quinta-feira, 10 de dezembro de 2009

terça-feira, 8 de dezembro de 2009

London: 16, Savile Row, W1S 3PL - Alfaiates a sério

London: 16, Savile Row, W1S 3PL - Alfaiates a sério

Foi à meia-luz dum restaurante italiano no Bairro Alto que contei pela primeira vez aos meus amigos que ia começar o Alfaiate. Um riu-se de mim, outro perguntou-me (franzindo a testa ao máximo) porque raio haveria alguém querer fazer isso, um terceiro chamou-me panasca e os outros dois ou três acharam que ignorar-me era a melhor forma de me fazer perceber a quão estúpida era a minha ideia. Consensos havia apenas dois: ideia parva, nome giro.

Fazia uma semana que, à custa deste mesmo feriado de hoje, tinha ido passar um fim-de-semana alongado ao Porto. Numa das tardes, um ficou a dormir e dois de nós seguimos para Serralves. O meu amigo lembrou-se de combinar encontrar-se, num dos recantos que por lá existem, com uma miúda que tinha conhecido na noite anterior na pista de dança do Indústria ou do Twins. Visitei a exposição, dei uma volta pelos jardins e, já um bocado farto, segui para a livraria. Foi lá que encontrei O Gentleman do Bernhard Roetzel.

Eu não compro fatos por medida. Para o fazer, teria provavelmente que abdicar de um ou outro fim-de-semana fora ou duma bebedeira ocasional que me parecem mais importantes para a minha felicidade que a mais-valia existente entre trazer um fato com as minhas medidas gravadas no corte que dirigir-me à loja do costume (da qual tanto gosto), escolher um padrão e pedir ao Sr. Horácio ou ao Sr. João que me marquem as bainhas e subam as mangas. Não ligo muito a marcas e nem as conheço para além daquelas que toda a gente conhece, não comprei uma única publicação de moda em toda a minha vida antes desta que vos aconselho a dar uma olhada (que é mais um manual de bons costumes que outra coisa) e, resumindo, sou tão entendido na matéria quanto o meu trisavô. Por estas e por outras é talvez um bocado presunçoso ter-me lembrado deste nome para o blogue. Mas soou-me bem e achei que fazia dose suficiente de sentido para o levar adiante. Savile Row é precisamente a (mais conhecida) rua dos alfaiates londrinos. Nunca teria ouvido falar nesta morada se não tivesse folheado O Gentleman mas a proximidade era demais para que não passasse por lá. Quando entrei na Norton & Sons fiz a figura de tanso que qualquer tipo habituado a um pronto-a-vestir faria. Estava ali apenas o Patrick e meia dúzia de catálogos de tecidos. Mais nada. Nem uma gravata, um cinto, ou a porcaria dum lenço que eu pudesse ao menos fingir que, efectivamente, poderia vir a comprar. Apenas eu, 1001 padrões diferentes irrepreensivelmente catalogados e uma alfaiataria inteira pronta para me fazer um fato. Lamento Patrick, vai ter que ficar para a próxima. Mas já que aqui entrei, vai uma foto?

p.s. – o amigo que me chamou panasca vem aqui todos os dias

domingo, 6 de dezembro de 2009

domingo, 29 de novembro de 2009

sábado, 28 de novembro de 2009

Mind the gap Kalaf

Mind the gap Kalaf

A culpa é da minha avó. A sério. Não há sítio onde vá que não meta conversa com x, interpele y ou faça sugestões a z. Fui buscar-lhe essa tara [não se preocupem com a minha avó, vai adorar que fale nela na mesma medida que adora chamar a si a responsabilidade de metade dos meus traços de personalidade; e, em abono da verdade, cabe-lhe a ela boa parte da responsabilidade de, algures na minha base genética ou experiência, ter encontrado motivos para iniciar este blogue]. Simplesmente sou mais contido. Só me dá para isso em viagem. Quem se lembra de alinhar comigo em férias tem sempre uma boa meia dúzia de episódios semi-embaraçosos que apenas não o são mais, apenas por isso...porque estamos de férias

O Kalaf não engana. É tão simpático no trato quanto à vista. A primeira coisa que me disse quando deu por falta do casaco que tinha ficado no avião foi:
- Fica com o meu número para fazermos a foto amahã.
Respondi-lhe que não se preocupasse com o meu conceito de fotos na rua. Que a tirava logo ali. O resultado está à vista. O Kalaf devia estar a adivinhar. Saiu desfocada. Os Buraka tocam hoje em Manchester. Break a leg Kalaf

quinta-feira, 26 de novembro de 2009

Palavra de escoteiro

Palavra de Escoteiro

Fui escoteiro e escuteiro. Quem foi um dia um deles percebe a diferença. Os outros percebem o essencial – que algures na minha pré-adolescência usei um lenço colorido ao peito e calcei umas meias compridas que prendia com o elástico das jarreteiras.

Há uns dias, em conversa com um cliente que é dirigente escutista, faltou-me energia para o contrariar. Dizia ele, sabendo do meu passado de lenço ao peito, que achava a indumentária escutista desactualizada. Que percebia que os jovens não se revissem naquele fardamento e que, em tempos em que a imagem parece contar quase tanto quanto a substância, dificilmente sentiriam o apelo escutista. À excepção do dia em que a Mariana Cardoso me chamou betinho quando passei por ela de mochila às costas, senti-me sempre bem de lenço ao peito. E para vos ser franco, se tomarmos como excepção que confirma a regra esse dia em que a minha personalidade se vergou perante os lindos olhos da Mariana, achei-me sempre um miúdo sexy naquela farda – a única que tive verdadeiro prazer em usar.

O Francisco e o Luís pareceram-me bem orgulhosos dos seus uniformes. Lembraram-me que nunca na vida vou cuidar de uma gravata como cuidei daquele lenço. E deixaram-me saudoso daquelas noites à volta da fogueira em que cantávamos o menina estás à janela, o dunas, a versão portuguesa disto e uma mão cheia de hits dos Resistência. Disso e daqueles olhares cúmplices que, por entre as achas da fogueira, deixavam no ar o desejo de um primeiro beijo à socapa, entre o último chichi da noite e o caminho para a tenda. Vou-vos ser sincero. A minha saída dos escuteiros não foi das mais épicas. Fui suspenso. Perguntaram-me o que achava e voltou a faltar-me a mesma energia que já me havia falhado no início do post. Mas senti saudades. Da fogueira, do lenço e das jarreteiras. Ainda sinto. A sério. Palavra de escoteiro

terça-feira, 24 de novembro de 2009

Madalena Braga

Madalena Braga

Quando oiço falar em Moda, oiço falar em espectáculos, festas, gajos de corpos torneados e gajas da minha altura. Mas não foram precisos 2 minutos para perceber que o pensamento da Madalena está no outro lado do mundo de tudo isso. Em vez de Milão, Paris ou Nova Iorque falou-me de Xangai, do projecto que a levou à China e do que lá viveu e sentiu. Em vez de eventos e produções falou-me em linhas, tecidos, crochés, materiais reutilizáveis e da máquina de costura que comprou no sul de França. E já com o sorriso que não apanhei na foto falou-me do seu projecto, da reciclagem de materiais, do recurso aos elementos tradicionais portugueses e do vestido que trazia.

A Madalena tem já uma trajectória e um curriculum assinaláveis mas a mim interessa-me o seu projecto. Porque não lhe cheguei a dizer mas tenho um fraco. Tenho um fraco por gente assim. Gente que adora o mundo mas que, quando arregaça as mangas e ajusta as bainhas, se queda por cá. Mesmo quando cá não está. Hoje sim, amanhã não sei. Mas de uma forma ou doutra o seu trabalho fica connosco. Aqui

domingo, 22 de novembro de 2009

sexta-feira, 20 de novembro de 2009

quarta-feira, 18 de novembro de 2009

terça-feira, 17 de novembro de 2009

domingo, 15 de novembro de 2009

Windclub - Il Milanese

Paolo Pasquini

Excepção feita à excitação inicial com o primeiro artigo na Time Out e não voltei a maçar-vos com convites para programa de televisão x, estação de rádio y, ou jornal z. Mas desta vez é diferente. É uma coisa pequena, simples e discreta. E é precisamente por isso que, mais que me gabar, gostava de a partilhar com quem aqui passa. Este blogue tem, a partir de hoje e durante 2 meses, uma pequena exposição no Windclub em Oeiras. E foi com um orgulho particular que vi alguém lembrar-se que, aquilo que aqui faço, valia a pena ser exposto.

Hoje almocei por lá e certifiquei-me que, caso cheguem à conclusão que nem as fotos nem os textos valem a visita, a degustação de pastas do Chef Paolo Pasquini justifica a viagem. Quanto aos posts emoldurados...não estão obviamente à venda. Estão sim, a partir desde mesmo momento, prometidos a cada um daqueles que lá aparecem. E a verdade é que, num dia feio como este, aquelas molduras (e o bonito prefácio que me escreveram) me asseguram um sorriso...um belo sorriso de Domingo

sexta-feira, 13 de novembro de 2009

So 80´s

So 80´s

Nasci em 1980 por isso, nem que seja para salvaguardar qualquer piada fácil, sou daqueles que tende a defender a importância dos anos 80. Mas no que à aparência e à forma de vestir diz respeito tenho a impressão que passámos os 90 a gozar com os 80. Com as permanentes delas, com a laca deles, com os estampados e as cores berrantes de uns e a ostentação de outros. Mas suponho que em parte da década seguinte a o que quer que seja se perca sempre algum tempo a ridicularizar o que acabámos de fazer. Até porque a chacota sobre aquela década parece terminar quando alguém chama à baila a música e as 1001 colectâneas que se fizeram sobre esses anos. Eu era apenas um miúdo e é provável que as páginas centrais da revista do Correio da Manhã (onde por acaso não abundavam nem roupa nem bom gosto) que folheava discretamente no barbeiro me tenham impressionado mais que a queda do Muro de Berlim, os enchumaços volumosos ou leggings hiper-coloridas. Mas tenho sempre os 80 como uma década vincada. E agora…à boca do seu 30º aniversário, é bem provável que muita da coisa que foi então cool e passou a obsoleta vire moda outra vez. E foi isso que este sueco de boa aparência me fez recordar. Que aquilo que um dia foi tido como bom vai, muito provavelmente, voltar a sê-lo.

Eu acho que a questão que agora se coloca é:
- Quando é que o vocalista dos a-ha – aquele tipo que descobriu o elixir para a eterna juventude – se vai voltar a vestir assim?

quarta-feira, 11 de novembro de 2009

terça-feira, 10 de novembro de 2009

Fábio

Fábio
Fábio

Conheci o Fábio aqui. E reconheci-o no seu trabalho, onde entrei, com uma lata que tenho vindo a aprimorar, e lhe perguntei se o podia fotografar. Acho que mais do que pessoas que vestem bem ou mal há, no que ao trajar diz respeito, dois tipos de pessoas. Aquelas que vestem o que querem e aquelas que vestem aquilo que os outros lhes permitem vestir. Eu nunca passei do segundo grupo mas adoro quando encontro alguém do primeiro

domingo, 8 de novembro de 2009

The coolest brothers in town

Os putos mais curtidos de São Mamede

Ter reflexos ajuda. E eu não os tive em dose suficiente quando passaram por mim pela primeira vez. O Pedro ia agarrado ao telemóvel e o Lourenço já empurrava a porta de casa quando percebi que me tinha acabado de cruzar com os miúdos perfeitos para um primeiro post sobre crianças. Praguejei um bocado e lá subi o resto da rua inconformado por ter deixado escapar entre dedos uma fotografia assim. É que não deve ser tarefa fácil…afinal de contas não me imagino a acenar com a cabeça ao primeiro estranho que me aparecesse à frente a dizer que gostaria de fotografar os meus filhos (e provavelmente se o dito estranho insistisse muito ainda me disponibilizaria para lhe dar umas chapadas)

Por estas e por outras fiquei radiante quando ontem, precisamente duas semanas depois de nos termos cruzado à sua porta, voltei a encontrar o Pedro e o Lourenço no Rossio. Agora, para tudo ser perfeito, só falta mesmo receber um e-mail dos pais, não a ordenar-me que remova daqui a foto, mas a agradecer que enviasse as outras duas ou três que lhes tirei

sexta-feira, 6 de novembro de 2009

Sancha - um vestido "bon chic bon genre", uma montra com um poema de Al Berto e uma vida com garra, dedicada à cidade

Sancha
Sancha Trindade

De ontem a Domingo os comerciantes do Príncipe Real vão estar abertos das 10h às 23h promovendo os seus espaços das mais variadas formas. O florista Em Nome da Rosa (estes gajos não são nada parvos…vou ao Google e o nome "deles" aparece antes do Umberto Eco) decidiu convidar a minha amiga Sancha Trindade (outra que não é nada parva) para estar na sua montra parte destes dias festivos.

Antes de mais importa dizer que tenho inveja da Sancha. Sempre que falo com ela tem um novo projecto em mãos (ou na cabeça) [ou na imaginação] e isto para um bancário é quase arma de arremesso. Aliás…gosto de pensar que o tempo que demorei a convencer a minha namorada a jantar comigo pela primeira vez está relacionado estritamente como a minha actividade profissional. Imagino o 007 a não sacar uma única gaja se dissesse às tipas que conhece que, nos tempos em que não estava a aquecer a Guerra Fria ao serviço de Sua Majestade, estivesse a tentar aprovar crédito a uma pequenas empresas e a espetar-lhes meia dúzia de produtos financeiros (a sério…queria vê-lo). Mas enfim…nem os simpáticos floristas da Dom Pedro V nem eu somos parvos e não é por acaso que a Sancha ali está e que eu estou aqui, ainda de pijama vestido, a (tentar) escrever uma crónica que lhe faça justiça.

A Sancha está ali porque uma montra pode ser um local privilegiado para alguém que escreve tão apaixonadamente por Lisboa, observe atentamente aqueles que cá vivem e aqueles que por cá passam. E é a isso que se tem dedicado a Sancha – a escrever sobre Lisboa. Seja, na revista Única do Expresso, na GQ ou no Lisbon Golden Guide (e noutros tantos sítios que agora não me lembro e que não tenho tempo para ir pesquisar). Mas vá…no fundo no fundo não é por nada disso que a Sancha está aqui. Nem sequer pelo bonito vestido com que a BCBG a vestiu. A Sancha está aqui porque, muito antes de me passar pela cabeça ter um blogue (quanto mais chamar-lhe Alfaiate), me motivou a fazer alguma coisa. Alguma coisa minha, feita por mim e para mim, fosse ela, gerar ou não, uma "margem financeira" entre o tempo que nela se despende e os dividendos que dela se tira. Hoje, essa coisa dá pelo nome deste blogue. E, algures lá num momento distante, estavam as palavras da Sancha, desta feita não sobre a cidade mas sobre aquilo que eu devia fazer da vida. E assim encerro uma semana dedicada (e só agora me dei conta) aos projectos de 3 mulheres. Uma filha, um livro e uma cidade. Encerro-a com Lisboa na ponta dos dedos

quarta-feira, 4 de novembro de 2009

Maria Guedes

Maria Guedes

Sim eu sei. Tem uma granda pinta. Mas a verdade é que a Maria não está aqui tanto pela sua pinta como por aquilo que se dispõe a fazer pela pinta alheia. A forma mais correcta de a apresentar seria provavelmente como fashion adviser ou personal stylist mas a quantidade de textos delico-doces que já escrevi por aqui já não me dão margem para termos amaricados. Ou seja, para mim a Maria é, em primeiro lugar, uma gaja porreira (a minha irmã disse-me que eu não devia escrever “gaja” mas eu não tenho culpa que os meus pais tenham aprimorado mais a educação dela que a minha). Segundo, é alguém com visível legitimidade para dar uns bitates sobre a aparência alheia e terceiro, alguém com uma enorme sensibilidade estética. A Maria aposto, é daquelas raparigas que sempre teve mais olho para os trapos que as amigas. A quem, naquelas duas ou três semanas de férias no Algarve, as amigas iam pedir não sei quantas dicas e uma resma de peças de roupa emprestada. Alguém que desde cedo, olhava os familiares de alto a baixo e formulava os seus próprios juízos sobre se, naquele dia, estavam mais ou menos “estilizados” do que aquilo que era costume. E imagino a Maria, muito objectiva, a passar por uma montra e a discernir com um breve olhar o que realmente importa daquilo que não lhe interessa – e de resto, já pensaram na quantidade de coisas importantes para o destino da humanidade que podemos fazer se nos despacharmos a escolher roupa?

Dizer que não se importam com a forma como aparentam já não pega. Quem é que não se preocupa com o que veste, com o que parece e com a forma como é visto? Podia ir sacar à net excertos de 1001 tratados sociológicos, alguns mais maçudos, outros mais interessantes, de não sei quantos académicos com quocientes de inteligência impressionantes, que juram a pé juntos que o senso e a verdadeira percepção do Eu só aparecem em função daqueles que nos rodeiam e da forma como estes nos vêem. A forma como nos vestimos é apenas mais um exemplo disso mesmo e não adianta negar que todos sentimos uma disposição, um conforto e um bem-estar diferentes quando nos sentimos bem com aquilo que trazemos por cima do corpo. Até porque a sensação é boa, e como tudo o resto que é bom, depois de experimentar, ninguém quer prescindir de voltar a sentir. E a Maria, cheira-me, conseguirá experimentar essa sensação – e dá-la a experimentar – muitas mais vezes do que a esmagadora maioria de nós.

Não vou gastar muito tempo com o facto de a Maria ter estado numa escola de moda xpto, ter participado no New York Fashion Week e ter já um curriculum simpático a vestir gente exigente com aquilo que veste. Para quem estiver curioso sobre isso tudo fica aqui o link e mais uns valentes milhares de resultados em qualquer motor de busca. Eu prefiro concentrar-me nas empatias engraçadas que se estabelecem entre as fotografias que tiro e meia dúzia de factos concretos. Por ora, falo-vos no livro que a Maria lança oficialmente amanhã. Tanta Roupa e Nada para Vestir. Acho que com ou sem o “tanta roupa” já toda a gente se sentiu sem "nada para vestir" para ocasião x ou y (acho que vou começar a recorrer a incógnitas…quase que conferem um fundo científico às parvoíces que aqui escrevo). Podemos sempre dar uma de blazés e fingir que isto não é nada connosco mas acho que dá muito menos trabalho assumirmos que, grande parte de nós, aceitaria de bom grado uma dica ocasional. O Alfaiate não vai virar páginas amarelas mas, no que diz respeito à Maria, estou contente por a ter aqui. E para que não fique link por explorar, deixo-vos o mais óbvio mariaguedeslisboa.blogspot.com.

segunda-feira, 2 de novembro de 2009

Ana, uma gravidez colorida e uma história que não me cansei de contar

Ana

Nunca dou grande crédito quando alguém me diz que houve determinado dia que mudou a sua vida porque A se cruzou com B enquanto C ia para cama com D que por sua vez se desiludiu profundamente com E. Mas a verdade é que não tenho grande legitimidade para me pôr com cepticismos extremos em relação a esoterismos alheios que eu também tenho a minha meia dúzia de momentos que, por um motivo ou por outro, marcaram o que estava para vir depois. Lembro-me, lá para meados de Abril do ano passado, a Time Out ter dedicado um número ao engate (hei-de pensar num sinónimo que não nos ponha logo a pensar em dois estranhos em cima um do outro), às 1001 formas de se poder conhecer pessoas interessantes e aos sítios que aquela redação achava mais indicados para que isso acontecesse. Lembro-me de achar que o editorial desse número parecia recear que o artigo não fosse levado a sério. Não era necessário. Eu levo a sério o momento em que meto conversa com alguém. Afinal de contas, não precisei que ninguém me apresentasse a minha namorada para lhe ir falar um dia. Momentos como esses, abordagens rápidas, às vezes meio suicidas, podem marcar uma vida ou, ao menos, parte dela. Estou-me a lembrar também que conheci a minha melhor amiga (aquela a quem atendo o telefone quando estou sentado na retrete) numa festa do caloiro da faculdade de um amigo meu. Quando um de nós meteu conversa com o outro pela primeira vez, não lhe ocorreu certamente que teria ali um amigo para a vida. O flirt, para além das primeiras ideias que nos atropelam desde logo o pensamento: da promiscuidade, da sedução, da tensão sexual e de meia dúzia de hormonas aos saltos; é às vezes a única forma possível de um rapaz e de uma rapariga iniciarem uma amizade

(conto-vos a história sobre como conheci a Ana porque acho que mudou para sempre a forma de me relacionar com as mulheres)

Era o último dia de aulas e tinha-me prometido que o dia não chegaria ao fim sem tentar fazer algo. Dificilmente sairia dali alguma coisa brilhante mas no que a raparigas diz respeito sempre achei que aquele adágio do “antes arrependeres-te do que fizeste que do que deixaste por fazer” ganhava toda a propriedade. Percebi que ela ia sair do liceu. Tal qual o dia anterior calculei o tempo que ela levaria a chegar à saída pelo caminho apenas acessível a professores e funcionários e tal qual o dia anterior cruzámo-nos junto ao portão. Segui-a a uns metros de distância e tentei perceber de imediato onde estava estacionado o carro, o mesmo cuja matrícula me continuo a lembrar dez anos depois. Já depois deste episódio, posso ter sentido algum entusiasmo ou agitação, mas não me recordo de ter voltado a sentir o coração bater a uma velocidade daquelas por causa de alguém que não conheço. Estava prestes a meter-me com uma professora do meu liceu e mesmo que dali em diante apenas me arriscasse a cruzar com ela num dos exames nacionais a que estava inscrito não deixava de me arriscar a fazer uma tremenda figura de parvo. Pouco antes de ela chegar ao carro abordei-a. Entre os disparates que balbuciei na altura só me lembro de atropelar palavras sobre palavras e de me sair qualquer coisa como “não podia deixar que o ano terminasse sem vir falar consigo”. A Ana já tinha a porta do carro aberta e perguntou-me, com um olhar que não deixava perceber o que estaria a achar de tudo aquilo:
- Mas então não tem nenhum assunto para tratar comigo?
Abri os braços e enquanto abanava a cabeça disse:
- Não professora. Bem que me dava jeito ter uma desculpa para falar consigo mas não tenho

Ainda hoje recordo este episódio com uma gabarolice descomunal. E ainda ontem disse à Ana (como digo quase sempre que a vejo) que aquele dia mudou a minha forma de me relacionar com o sexo oposto. Mas ela nunca me leva a sério. Acho que hoje, dez anos volvidos e a menos de dois meses de ser mãe, vai finalmente levar

sexta-feira, 30 de outubro de 2009

Yen

Yen

Não há ninguém designado para o efeito. É como se, entre o meu grupo de amigos, a "mão invisível" do Adam Smith assegurasse que um de nós se lembra de avisar todos os outros quando há Chocolate City no Lux. Por entre a minha malta há uma certa queda pelo Hip-Hop e R&B e, em particular, por essas noites em que terminam comigo, quase sozinho na pista, virado para a Yen Sung e o seu convidado, a fazer figuras que fazem lembrar um bêbado a dançar o Roxanne na recta final duma festa de casamento. E só quando lhe perguntei o nome – porque gosto sempre de saber o nome de quem fotografo – percebi que me preparava para fotografar a minha D.J. favorita; a única mulher para quem posso passar a noite toda a olhar, a cantar e a esbracejar sem que a minha namorada faça caso disso.

O colorido do calçado da Yen lembra-me como, há uns bons 10 anos, me chegou a primeira descrição do Lux – a discoteca onde se podia entrar de ténis. Mas, apesar de contrastar radicalmente com os vela e as camisas aos quadrados com que rumávamos religiosamente à porta de um edifício branco na 24 onde, segundo a etiqueta local, se deveria passar a noite de copo na mão a dançar com os olhos, não foi pela indumentária que a revolução que o Lux protagonizou na noite lisboeta me tocou particularmente. Nesse campo parece-me que se limitou a adiantar uma tendência. Não foi também pelo espaço fantástico, pelas inovadoras projecções ou pela programação musical. Ou pelo menos – agora que me recordo do quão impressionado e saloio me senti da 1ª vez que lá entrei – não foi isso o mais relevante.

A noite é um mundo à parte. Parece-me uma regra basilar de qualquer negócio fazer-se por tratar bem aqueles que garantem a sua subsistência. Mas na noite, verifica-se uma inversão de lógicas que nos conduz a uma função, segundo a qual, quanto mais sucesso tem um espaço nocturno, mais legitimidade parece ser reconhecida ao seu staff para maltratar quem por lá passa. A simpatia e a afabilidade da Yen acabaram por me remeter para o imenso respeito que nutro pelo Lux. Eu gosto do Lux, de muita da música que por lá passa, do espaço amplo, do seu pé-direito, dos gajos giros e das gajas boas, da varanda, do terraço, das projecções nas paredes e de mais um sem número de coisas... Mas o que eu gosto mesmo do Lux é de algo que nunca encontrei numa outra discoteca portuguesa. É do respeito com que se trata quem lá entra. É perceber que os seguranças estão lá, como o próprio nome sugere, para assegurar a minha segurança. É saber que posso contar com uma casa de banho asseada num momento de aperto e, constatar, que a senhora que a limpa me parece mais simpática e educada que tantas supostas vedetas que promovem tantos outros espaços nocturnos. É saber que, ao dirigir-me a um bar, me vão servir uma bebida decentemente, apresentar um estojo de 1ºs socorros caso me aleije ou, simplesmente, saber que mesmo sem ter um decote generoso ou amigos lá dentro, haverá, algures, alguém disponível a quem me possa dirigir.

Ainda no final do Verão do ano passado jurei que nunca mais entrava num sítio que começasse com a letra K quando, à saída daquele bonito espaço ao ar livre junto ao rio, e depois de ser ameaçado por um segurança a quem tinha dito que devia ter cuidado para não empurrar quem por ele passasse, vi um outro esbofetear um cliente. Mas, (ainda) mais que a dita bofetada, impressionou-me a inexistência de qualquer censura perante aquilo. Como se todos aqueles que ali estavam – colegas e clientes – assumissem que ver um mono com hipertrofia muscular achar-se no direito de fazer justiça pela sua própria vontade fosse apenas uma vicissitude da “noite”. E pronto…no fundo é isso. Sinto que se um dia me acontecer algo de muito bom e for para o Lux festejar (e beber muito para além da minha conta) arrisco-me provavelmente a que me acompanhem à porta e que me digam o que disseram um dia a um amigo meu:
- Desculpe mas não vai ser possível. E amanhã quando cá voltar, vai-nos agradecer por não o termos voltado a deixar entrar.

Não vos posso assegurar que no Lux só trabalha gente educada e bem formada, nem faço ideia de quantos episódios desagradáveis lá ocorrem por noite. O que eu sinto, bem ou mal, é que há lá uma fundo. E que esse fundo, parece dizer a quem lá trabalha que os clientes são para ser estimados. Isto não devia ser motivo de elogio. Mas é. E foi já na pele deste blogue que acho que descobri o porquê de tudo isto. Cruzei-me um dia com o Manuel Reis. Não é uma figura fácil. Tem uma silhueta interessante mas o porte e o semblante carregado não convidam à abordagem. Mas falei-lhe...falei-lhe no Alfaiate e perguntei-lhe se o podia fotografar. De tão educada e elegante que foi a sua recusa, que fui para casa com a sensação que tinha acabado de tirar a mais bonita fotografia para o blogue. Como se, naqueles 30 segundos de diálogo, tivesse percebido o porquê de o Lux ser diferente. Nem tanto pelas doses industriais de gajas giras que lá vão, pelo som que por lá se passa ou por aquele magnífico Terraço que, neste Outono tépido, ainda se mantém convidativo. Por nada disto, apenas pela sua delicadeza e trato.

Mas todos nós sabemos, que para fazer uma discoteca tão especial, tudo isto não chega. Falta a Yen. E cheira-me que não vou esperar até à próxima noite de Chocolate para a voltar a ouvir. Aliás, este post deixou-me a cantarolar uma certa música do Sérgio Godinho da qual tanto gosto, com vontade de lhe adulterar a letra e trocar 3ª por 6ª feira, e dizer que vou (lá para as 5 da madrugada) não à ladra mas ao piso de baixo do Lux. É lá que vai estar a Yen hoje. Eu vou. Do you?

quarta-feira, 28 de outubro de 2009

Uma italiana em Lisboa

Uma italiana em Lisboa

Chiara. Foi assim que me disse que se chamava. Está em Lisboa há 10 anos e é cantora. De resto, a pose e o trato (até mais que a indumentária) induziram-me de imediato a pensar que estaria perante alguém com veia artística. Fiquei curioso por saber o que cantava ao certo mas, como já não havia tempo para descobrir, sugeri-lhe que me enviasse um e-mail a contar. E enviou. Mas escreveu-me que, à semelhança do que tinha descoberto neste blogue, preferia que fosse eu a contar a história desta fotografia que ela a contar a sua. Eu não tenho pretensões como promotor cultural. Sou apenas teimoso. O e-mail disse-me que a Chiara é Chiara Picotto e o Google tratou do resto. Entre os 14 600 resultados que achei este foi o que se me pareceu mais com a Chiara com que cruzei no Camões. Mesmo ali, junto àquele exaustor que faz qualquer mulher de saia ou vestido ter, quando menos espera e sem que ninguém a avise de antemão, aqueles 3 segundos de Marilyn Monroe no seu vestido branco. E agora sim Chiara, a história desta fotografia está contada

terça-feira, 27 de outubro de 2009

domingo, 25 de outubro de 2009

quarta-feira, 21 de outubro de 2009

terça-feira, 20 de outubro de 2009

Uma amálgama chamada Diogo

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O Diogo é a 1ª pessoa que aqui aparece (excepção feita a meia dúzia de amigos que fotografei) que já conhecia o blogue. É uma sensação gira. Por mais gente que aqui venha existe uma vida para além da blogosfera e é engraçado pensar que nesse mundo real feito de pessoas de carne e osso com quem me cruzo na rua, no cinema ou no supermercado haja também quem por aqui passe. O Diogo estuda Design de Moda e isso, cliché ou não, nota-se. É natural esperar-se de alguém que estude Moda que a veja – e sai outro cliché – para além do horizonte que os outros a avistam. Mas os clichés, note-se, existem por algum motivo. Existem porque fazem realmente sentido. Transformam-se em clichés no momento em que deixam simplesmente de dar estilo. Que é como quem diz, no momento em que deixam de levar miúdas giras para a cama. Resumindo…não estou à espera que toda a gente adore a riqueza que a mescla que o bigode à monarca da dinastia de Bragança, o casaco de malha que podia ter sido da sua avó, as calças que parecem compradas a um vendedor senegalês e os sapatos que eu gostaria de usar na casual Friday que não tenho no trabalho trouxeram a este blogue. Eu sei…eu sei…parece que estou a gozar. Mas não estou. O Diogo quanto mim, estude lá o que ele estudar, é um miúdo muita giro. E sem querer parecer antidemocrático, para mim...é ponto final parágrafo

domingo, 18 de outubro de 2009

Lisboa a dois












Lisboa é destino romântico é destino de engate. É spot gay é spot hetero. Viajantes cruzam-se e lisboetas encontram-se. E de cada ano que passa a cidade fica mais cosmopolita e globalizada e mais cosmopolitas e globalizados ficam também os casais que por aqui se avistam. Nos meus tempos de faculdade tinha um estranho fetiche em torno de me apaixonar por uma estudante Erasmus. Talvez por na altura, não ter experimentado ainda algo que me soasse a verdadeiro amor, encarava de forma romântica aquele dia da separação em que talvez, feitas as contas e mensurados os sentimentos, se chegasse à conclusão que merecia a pena continuar e validar uma relação por correio, e-mail, msn, skype e viagens esporádicas nas quais se poderia matar a saudade, consolar a libido e alegrar o coração. E só mais tarde percebi que a separação e a distância têm mais de tramadas e lixadas que românticas ou encantadas e, lá devo ter percebido a dada altura, que era uma graça divina apaixonarmo-nos por alguém que paire perto de nós.

Este post não foi premeditado. Há dias encontrei estas fotografias e fazia-me pouco sentido publicá-las isoladas. Foram retratos que tirei, uns mais assumidamente outros mais à socapa, mais à laia de experimentar a máquina que por outro qualquer motivo. Fizeram-me pensar nos casais, no amor e nos relacionamentos. No que eles me dizem, no que eles me atraem, naquilo que a sua condição me causa inveja e na inveja que lhes poderei causar a eles. Ocorrem-me aquelas duas teorias intemporais nas quais acreditamos alternadamente consoante o período da vida que vivemos, segundo as quais estivemos sempre predestinados para aquela pessoa ou que, essa mesma pessoa não é – perdoem-me…”não foi”…este raciocínio aparece usualmente no pretérito – mais do que o fruto de meia dúzia de casualidades. E se há alturas em que prezamos particularmente aquelas jantaradas de mancebos em que se descreve em detalhe – como que batendo na mão do peito – as mais insignes proezas sexuais e respectivas badalhoquices de cada um; há também as outras, em que, com uma voz melosa e um pingo de felicidade pura no peito, nos quedamos em descrições alongadas de um pôr-do-sol na praia ou uma noite fria ao relento na companhia certa.

E no outro dia, na mesma pista de dança onde cheguei a recitar, em momentos menos nobres das minhas bebedeiras, (e porque me fascina ver um homem de aparência dura revelar-se tão sensível) excertos de crónicas do Lobo Antunes à minha namorada (muito antes dela sonhar vir a sê-lo e imediatamente antes de me virar costas e ir comentar com as amigas que eu tinha tanto de insolente quanto de retardado), achei graça ouvir o meu amigo Mirsa perguntar-me:
- Hoje não me apetece meter-me com nenhuma gaja. Apetece-me conversar. Achas que há aqui alguma rapariga que queira conversar?
- Claro que sim. – respondi.
Olhei para a pista e achei que metade daquela gente de aparência sexy e descontraída sentia no fundo falta de acordar com alguém ao lado a quem não sentisse necessidade de pedir que lavasse os dentes antes de se voltarem a beijar. Porque esse é o critério científico mais preciso que conheço para detectar o amor. Conseguir desfrutar daquela doce – em teoria insuportável – halitose matinal da pessoa que se tem ao lado sem a interferência de um dentífrico. Mas isto sou eu que digo... E sempre ouvi a minha mãe dizer-me, carinhosamente é certo, que tenho uma certa pancada. Até porque, supostamente, estávamos aqui para falar de trapos, não era?